A efemeridade da bola

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Tentar entender a humilhação pela qual o Brasil passou não é a melhor opção no momento. Se é que há uma



Texto de: Felipe Deliberaes

AVISO: este texto contém histórias de vida própria, clubismo, patriotismo, anti-patriotismo, comparações pouco lógicas e muita, mas muita subjetividade.

Este que vos fala, desde criança, sempre foi flamenguista. Mas não se fissurou pela magia da bola tão cedo - só veio a acompanhar com frequência em 2007, aos treze anos. Mas ele tem vagas memórias de alguns momentos importantes, anteriores ao ano referido: ir ao Palestra Itália assistir ao empate contra o Santo André, na primeira final da Copa do Brasil de 2004; a finalíssima da edição de 2006 do mesmo torneio, contra o Vasco; e até uma final da extinta Copa Mercosul, bem no início do século, no auge dos meus sete anos. Mesmo depois de começar a acompanhar, não tive a oportunidade de assistir alguns momentos marcantes. Um deles foi o 'Cabañazzo', em 2008. Não perca o fio da meada: esse jogo tem tudo a ver com o que aconteceu nesta tarde de domingo, no Mineirão.

Para os não-familiarizados com o ocorrido, estávamos buscando uma vaga nas quartas-de-final da Libertadores de 2008. O oponente era o América do México, liderado pelo carismático Salvador Cabañas, um paraguaio gordinho e baixinho, que parecia ter saído de uma pelada de casados x solteiros. Vencemos a trupe mexicana na ida, em terras mariachis, por 4x2. Antes de jogarmos a partida de volta, conquistamos o bi-campeonato carioca, e a metade rubro-negra do Rio de Janeiro era só festa. Chegado o segundo jogo das oitavas da competição continental, mal vimos a cor da bola. A festa passou a ser de Cabañas, que marcou duas vezes na vitória mexicana por 3x0, em pleno Maracanã; No agregado, 4x5 e eliminação. E ninguém entendeu nada. Parafraseando o então goleiro, e hoje ilustre presidiário, Bruno: "não tem explicação, não, não tem". Não tinha mesmo.

Parecia brincadeira de rua: alemães comemoram um dos vários gols da tarde (Foto: Getty Images)
Tudo bem, ontem foi 7, seven, sete a um! Numa semi-final de Copa do Mundo! Em casa!!! Ainda mais difícil de raciocinar. A preocupação do torcedor brasileiro pelas ausências de Neymar e Thiago Silva refletiam como água cristalina nas conversas do dia-a-dia e nas apostas: "ah, põe aí 2x1 pra gente", "olha, não sei não, vai ser difícil, arrisco um 1x1", "acho que não dá hein, 1x0 pros caras". Era a prova de fogo e estávamos sem duas das referências técnicas e motivacionais. Mas bem como no Cabañazzo, o 'Alemanhazzo' não se explica tão fácil assim.

Mas vamos tentar. David Luiz, o melhor jogador da seleção na Copa, se animou com o bom início da equipe e, como de costume, subiu ao ataque muito mais rápido do que voltou para recompor a defesa. Mantendo a calma e não se desesperando com a pressão, os alemães esperaram um buraco deixado pelo zagueiro mais carismático (marqueteiro?) da história do Brasil - ok, por Dante também - para tocar a bola na área com facilidade e meter pro fundo da rede do pobre Julio César (vem pro Mengão, Julio!). Marcelo, lamentável nesta Copa, aprontou das suas mais uma, duas, três vezes. Os volantes ocupavam, em alguns momentos, os mesmos espaços, deixando o dinâmico meio-campo alemão livre para avançar. Oscar, mais uma vez, foi nulo. Bernard é jovem, não tem experiência de Copa, foi jogado na fogueira etc. etc. Mas a bola pipocava em seus pés alegres. Parte da culpa cai sobre os companheiros, que se posicionavam pessimamente; Contudo, parte cai sobre os próprios ombros frágeis de um menino que vai evoluir, mas que ainda não consegue carregar o peso da camisa que vestiu ontem. E Fred. O que falar sobre Fred? Que tal não falarmos sobre Fred?

Pra história: Klose marca seu 16º gol e é o maior artilheiro da história das Copas (Foto: Getty Images)
Vamos falar sobre Klose. 16 gols. Merecidíssimo! Atacante trombador, podemos chamar até de caneleiro, mas empurrar a bola pro gol é com ele mesmo. Já está na história. É um dos grandes, mesmo que nunca tenha sido realmente grande. Será que para por aqui ou deixa sua marca na final? Olha que o menino Müller tá aí, pra honrar o sobrenome... honrar. E aqui do nosso lado, honraram? Julio César fez isso? David Luiz, Luis Gustavo, Neymar fizeram isso? Eu, particulamente, acredito que sim. Uns mais, outros menos. No final das contas, é triste os esforços individuais serem eclipsados pela vergonha coletiva. Da qual estes quatro mencionados também participaram... uns mais, outros menos.

A verdade é que o futebol é inconstante. Uns dizem que é cíclico; outros dizem que o dinheiro já está mandando em tudo. E há quem acredite que é tudo roubado, combinado, manipulado, ou demais teorias conspiracionistas terminadas com o sufixo -ado. Mas este flamenguista que já viu um 0x2 pro Santo André, um 0x3 pro América-MEX, um 0x4 pra Universidad-CHI acredita ser melhor não buscar explicação para determinados ocorridos. É como o pobre jovem apaixonado que deu amor, carinho e conforto para sua amada e busca explicações para a traição, que ocorreu apenas três meses depois de receber um 'sim' ao pedi-la em casamento. Ou a estudiosa que devorou os livros antes do vestibular e hoje trabalha no McDonalds esperando a próxima oportunidade, já que 'deu branco' na hora H.

É, tem coisas que é melhor a gente nem tentar entender.

(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

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