Enfim, a final

Texto de: Gabriel Panice

Enfim chegou o grande dia. O mais aguardado por quem ama e acompanha futebol.  A final da Copa do Mundo. Alemanha e Argentina, cada uma a seu modo, se preparam para a batalha final. Seis jogos após iniciarem a disputa, ambas têm seus motivos para levantarem a taça. A Alemanha, para essa geração apagar de vez a fama de amarelona e garantir um título, após tantas vezes ficar quase lá (final da Copa em 2002 e na Euro 2008, além das semifinais das Copas de 2006 e 2010 e da Euro 2012). Já a Argentina, para quebrar o longo tabu de 28 anos sem Copa, e desde 1993 sem ganhar nenhum título (nem Copa América), além de poder levantar a tão sonhada taça em território inimigo, como lembrou o bravo Mascherano antes da Copa (um dos melhores do Mundial, por sinal).

Alemanha e Argentina se tornarão hoje, as duas seleções eu mais se enfrentaram em finais de Mundial: a terceira (antes 86 e 90). No México em 86, comandados por Maradona, os argentinos levantaram a taça pela segunda vez na história. O troco veio em 90, na Itália. Os alemães ganharam por 1 a 0 em um lance muito polemico. Aos 40 do segundo tempo, o mexicano Edgardo Codesal aponta a marca da cal após uma simulação de Voeller. Brehme (que não era o batedor oficial, só bateu porque o capitão, Mätthaus, estava com uma bolha no pé) foi lá e deu o terceiro titulo alemão.

No Brasil, acontece o tira teima. Algumas superstições vêm à tona. A Alemanha foi campeã quando usou seu uniforme principal, o que acontece amanhã. Ao contrário da Argentina, que usa seu segundo, o mesmo que perdeu em 90. Tanto Brasil, quanto Itália levaram 24 anos para conquistar o tetra campeonato. Esse ano completa 24 anos do tri alemão, será?

A sede por vingança é muito maior por parte da Argentina. Se enfrentaram nas duas últimas Copas, nas duas a Alemanha passou. Em 2006, precisou dos pênaltis, já em 2010, um massacre por 4 a 0, e os alemães eliminaram pela segunda Copa seguida os argentinos nas quartas de final. 

Em 2010, a Alemanha goleou por 4 a 0 e mandou a Argentina para casa. (foto: Getty Images)

Dentro de campo, sem muitas surpresas. Alemanha deve vir com o mesmo time que atuou nas quartas, contra a França e no massacre, contra o Brasil. Lahm na lateral e Klose no ataque. Pelo lado albiceleste, di María ainda tem chance se jogar. Treinou no sábado, mas sentiu um incomodo no final da atividade e deve ficar no banco, assim como Agüero. Dessa forma, repetiria o mesmo time que eliminou a Holanda nos pênaltis. As prováveis escalações:




O que esperar do jogo? Alemanha com a bola, Argentina compactada, esperando para golpear com os pontas Enzo Pérez e Lavezzi e claro, Lionel Messi, solto, para decidir. Hoje, é essencial que ele apareça para a Argentina vencer.

Para nós, brasileiros, resta aproveitar o espetáculo. Se nossa seleção deu o maior vexame da história do futebol, nossa Copa não deixa a desejar em nada. Merecemos uma final memorável. Essa Copa merece. Desfrutemos. Afinal, teremos a melhor seleção, o melhor jogador, o maior palco, o maior artilheiro. É aproveitar.

Nau à deriva

Texto de: Enrique Bayer

Os comandados de Felipão despediram-se da Copa do Mundo perdidos como um navio envolto num nevoeiro em alto-mar. É o retrato de um futebol que pode ser legendado em duas palavras: "estamos atrasados" ou "estamos perdidos". O futebol brasileiro está atrasado, perdido.

Quando tive a oportunidade de escrever sobre o confronto entre França e Suíça (que você pode conferir aqui) eu disse que "compactação, velocidade, objetividade e variação de jogadas são os pilares para o sucesso no futebol moderno", acontece que a seleção de Luis Felipe Scolari não demonstra nenhum desses valores. Aliás, parece fazer exatamente o contrário.

Um dos principais defeitos desse time, é que o meio campo não aparece pro jogo. Os zagueiros, especialmente David Luiz, tentam comunicação direta com o ataque, falhando miseravelmente na maioria das vezes. O que agrava a situação é que parece que não há técnico na lateral do campo. Os erros se repetem ou se repetiram jogo após jogo. Estamos perdidos.

Além do futebol pífio, que foi destruído pelas duas melhores seleções que encontrou pelo caminho (Alemanha e Holanda), a seleção brasileira parece carregada e cercada de soberba, desde a cobertura midiática até a postura da comissão técnica e dos jogadores... isso durou até a Alemanha nos humilhar. Boa parte dos envolvidos na preparação acreditavam, ou pelo menos diziam, que essa seleção era capaz de ser campeã. Na verdade nunca foi.

Estamos perdidos no nevoeiro, como o navio do começo do texto. E vamos demorar para sair dele. O futebol o país precisa de uma liga séria. Precisa abandonar a soberba do discurso que diz que somos "o país do futebol". Precisa de novos conceitos, novas ideias, novas pessoas. Precisa sair do nevoeiro. No entanto, é difícil acreditar que alguém em terras tupiniquins tenha coragem pra bater no peito e dizer "Eu posso salvar o navio!".


A expressão de David Luiz diz tudo: fracasso retumbante (Foto: Reuters)
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A fatídica decisão do terceiro lugar

Pra Holanda é desprezível, para o Brasil é em nome da honra


Texto de: João Vitor Rezende

David Luiz desolado após a derrota contra a Alemanha (Foto: Gabriel Bouys/AFP)
Existiram decisões do terceiro lugar interessantes. Em 1998, o Parc dos Princes viu a Croácia fazer história logo em sua primeira Copa, e vencer a Holanda. Quatro anos depois, a Coreia do Sul - que dificilmente terá outra oportunidade,a não ser que a arbitragem dê outra "mãozinha" - jogou em casa em Daegu, mas perdeu para a Turquia, que também fez seu melhor resultado na história dos Mundiais. Essas partidas realmente foram decisões, principalmente em 2002, quando eram duas seleções que nunca tinham chegado tão longe. O jogo de sábado, provavelmente não entrará pra história. Talvez, entre.

O duelo Brasil e Holanda será mais que um amistoso de luxo. Não pela gana em conquistar os méritos do terceiro lugar. Até porque, ficar em terceiro numa Copa, não tem o mesmo significado de uma Olimpíada, por exemplo. Não conta pro quadro de medalhas, nem medalhas são atribuídas aos vencedores. Mas está lá, pra cumprir tabela. Certamente, pra não deixar a Copa com número ímpar de jogos. Já que deve ser jogado, Brasília receberá sua sétima partida neste sábado.

Van Gaal disse que não deseja perder, porque faria a Oranje deixar as terras sul-americanas como derrotados, com duas quedas consecutivas. Pra seleção brasileira, não é necessário dizer muita coisa. Vencer será uma tentativa de salvar o ambiente, de manter a cabeça erguida, após o passeio alemão no Mineirão (mais detalhes da partida contra a Alemanha, aqui).

Não dá pra prever qual será o comportamento e a escalação holandesa. Talvez, Van Gaal faça experiências, visando o próximo ciclo, pois sua equipe é recheada de jovens talentos formados na Eridivisie, que provavelmente continuarão defendendo a camisa laranja. O discurso dado pelo time de que a decisão não importa é balela, deve ser descartado. Afinal, Danny Blind, ex-zagueiro e atual auxiliar técnico, comandará a Holanda na próxima Copa. Sem dúvida, os jogadores vão querer mostrar serviço ao futuro treinador.

Felipão já assegurou 2 ou 3 mudanças. Fernandinho, Bernard e Fred devem ser sacados e substituídos por Ramires, Willian e Jô. Os dois últimos quase não tiveram oportunidades, e poderão ser titulares na despedida melancólica. Se os adversários já tem o futuro definido, o Brasil está longe disso. O final do jogo promete explicações, idas e vindas, quem sabe choro, tristeza, prognósticos sobre o futuro.

O resultado dos 90 minutos (ou mais) pode ficar de lado, em relação ao que pode vir depois do apito final. Daqui 20 anos, esse jogo poderá ser lembrado pelo rompimento de uma série de fatores que prejudicam o futebol brasileiro e pelo início de uma nova era, ou, por um trabalho que começou na base, e termina num próspero fim do jejum holandês. A Copa das Copas faz história, até na decisão do terceiro lugar.

Vlaar após desperdiçar o pênalti contra a Argentina (Foto: Odd Andersen/AFP)

Por um futuro melhor

Texto de: Augusto Travensolli

Sou daquele menino que nasceu apaixonado pelo futebol. Desde pequeno eu incomodava meu pai, chutando a bola e ficava maravilhado a cada gol que fazia entre os chinelos que improvisava para brincar. Mas porque eu cresci assim? Não sei, mas grande parte dessa paixão e amor se deve ao orgulho de ver a seleção de meu país vencendo duas Copas do Mundo, sempre sendo soberana e respeitada. Mas, e agora? E agora José? O que vamos contar para os nossos filhos, para as futuras gerações? Aqueles menininhos que falavam em um comercial ‘Joga pra mim’. É, o orgulho foi ferido e com sete dolorosos golpes.

Nunca em uma Copa do Mundo fiquei tão empolgado para ver, talvez por ser essa a que eu mais entenda e saiba que tudo tem um porquê. Mas é a Copa das Copas, a Copa do Mundo em meu país, a nação do Futebol, terra de Garrincha, Pelé, Ronaldo, Romário, Bebeto, Pepe, Rivaldo, Carlos Alberto Torres, Cafú, terra que é apaixonada pelo esporte e que se acostumou a ser soberana no futebol. Soberania essa que foi abalada ao chão, após o massacre alemão.

Durante o período que antecedia o mundial, eu ficava na expectativa e na torcida pela vitória do Brasil. Não só por vencer e manter a hegemonia no futebol, mas também para recuperarmos o orgulho de ser brasileiro, de sair nas ruas com a camisa do Brasil. O orgulho de dizer para os nossos filhos que vimos Neymar, Ronaldo e Romário. Além disso de ter tranquilidade de formar uma geração de brasileiros, apaixonados pelo Brasil.

O futebol sempre foi a nossa alegria, e ver o Brasil perdendo assim é como presenciar o fim de uma era, o fim de um império. A última terça-feira foi um dia em que deu tudo errado, a Alemanha soube bem como dar quatro duros golpes, sem nos dar chances de recuperação. Ontem, venceu a frieza sobre a emoção. Não que os alemães sejam imunes ao peso de uma decisão, mas sempre fomos uma avalanche de sentimentos. E com um time tecnicamente superior, foi fatal.

Agora é juntar os cacos para chegar a Rússia, mostrando que nós podemos, nós queremos, não somos o Brasil da Copa de 2014, e sim o futebol pentacampeão mundial. Vamos parar de derrotismo e de criticar nosso país. Poxa vida, o Brasil tem mil defeitos, mas somos um povo feliz, batalhador, guerreiro e que não desiste nunca. Vamos fazer um Campeonato Nacional digno dos anos 90, com finais memoráveis de Maracanã lotado. Vamos parar de torcer apenas no Facebook e apoiar o time no estádio, vamos pra cima. O show tem que continuar, 2018 é logo ali. Só não podemos queimar essa geração toda, mudanças são necessárias, mas sem um radicalismo total. E que em 2018, com a ousadia e alegria de Neymar, possamos finalmente recuperar esse ego, amém.

Augusto Travensolli é jornalista formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). É assessor de imprensa da Prefeitura Municipal de Irati-PR, colaborador no www.boatos.org e, claro, apaixonado pelo esporte jogado pelos pés - do futebol de botão ao dos gramados de todo o mundo.

Um dia, ou 4 anos de ressaca?

8 de julho de 2014. A maior tragédia da história do futebol brasileiro. Mas será a última?


Texto de: João Vitor Rezende

Felipão deveria estar pensando pra falar. Deveria... (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Depois da inesperada (menos para os discípulos da Mãe Dináh) e vexatória derrota, é necessário buscar forças pra recomeçar. Não só recomeçar, e sim, reformular. Mas após a eliminação de 2010, já se falava em transformação do futebol brasileiro. Houve uma tentativa de inovar na seleção, mas a seleção é só o ponto mais alto, e não todo o futebol brasileiro. Há coisas que ainda não foram feitas, e dificilmente serão feitas até 2018.

É possível se renovar, não só renovar a seleção, mas transformar tudo. O principal movimento de reformulação, o Bom Senso F.C., criado por atletas, é taxado de ridículo, incoerente, não só pelos dirigentes, que não querem ter seu poder dividido. Se submeter a aumentar a pré-temporada dos times, consequentemente diminuir o número de datas, o que resultaria numa diminuição de lucro e de poder das federações. A Globo não deseja perder o dinheiro de seus anunciantes, com a menos jogos por ano. É difícil falar que a Copa não é palco de disputas políticas, se o nosso futebol é cheio desses joguinhos. É lamentável, mas é verídico.

Desde a última conquista em 2002, o Brasil parou no tempo. A Espanha dominou o futebol com a conquista da Copa de 2010, 2 Eurocopas com a seleção principal, e 5 com as seleções de base. A Alemanha faz um trabalho impressionante com 4 semifinais seguidas da Copa do Mundo, 3 conquistas da Eurocopa pelas seleções de base e uma reestruturação da Bundesliga. As duas seleções apresentaram novos talentos, novos sistemas táticos, e os brasileiros, pararam. Quando se esperava pelo menos um bom planejamento pra disputar o Mundial em casa, a escolha equivocada por Mano Menezes foi consertada com outro erro, e o planejamento foi jogado fora. Buscaram a experiência. Mas experiência, sem resultado não diz nada. Scolari vem de passagens ruins pela seleção portuguesa, Chelsea e Palmeiras. A conquista da Copa do Brasil de 2012, ficou manchada pelo rebaixamento no mesmo ano, que Felipão deixou o barco, e assumiu o comando da seleção canarinho.

E as falhas continuaram no processo de preparação. A Copa das Confederações foi uma ilusão. A conquista de um campeonato que não serve de parâmetro pra nada, virou obsessão e espelho. Mas quatro campeões mundiais estavam lá? O Brasil é tri-campeão consecutivos, e nos anos seguintes, duas eliminações nas quartas de finais, e a última...  A última eliminação foi proporcionado por uma série de fatores, escolha dos jogadores. Existem sim, outros nomes que deveriam estar aí. Luís Filipe, Miranda, Luisão, Kaká, Ganso, Coutinho, Alan Kardec, Luís Fabiano, e até Robinho porque não. Se o retrospecto recente não o credenciava, o fato de ser um "medalhão" poderia contar a seu favor, quando o menino Neymar estivesse sobrecarregado. O mesmo vale para Kaká, que fez uma temporada boa no Milan, mas não foi lembrado. Esses nomes foram preteridos por Maxwell, Henrique, Paulinho, que vem de péssimas atuações no Tottenham, Jô e o contestadíssimo Fred.

Desde o primeiro dia de trabalho de Felipão e Parreira, foi criada uma pressão completamente desnecessária em busca da taça. E a cobrança só cresceu, até afetar o psicológico dos atletas. Não foi a torcida, ou as penalidades máximas que causaram isso, e sim o "oba-oba" de seus comandantes. O Brasil era favorito, por estar em casa, mas dividia o favoritismo com outras seleções de grande porte. Não para o auxiliar técnico, afinal, já na chegada à Granja Comary em maio, a seleção estava "com uma mão na taça". E o que menos se viu em Teresópolis, foi treino. Gravação de programa de TV sim, isso teve. Treino, poucos. Variações táticas, nenhuma. Afinal, variação, de qual tática?

Já não bastasse os problemas a serem resolvidos, a acachapante derrota contra a Alemanha, duas cenas lamentáveis e até bizarras protagonizadas pelo presidente da CBF e a comissão técnica. Cafu foi ao vestiário após o jogo, demonstrar apoio aos jogadores, mas foi expulso, isso mesmo, expulso, por José Maria Marin, presidente de uma confederação que diz atender os interesses do futebol brasileiro. O motivo alegado, foi que Marin não desejava a presença de estranhos. Vai ver nenhum dos jogadores conheciam o capitão do penta, ou talvez ele não conheça. E no dia seguinte, quando se esperava humildade pra reconhecer e assimilar os erros, um banho de arrogância por parte de Luis Felipe e Carlos Alberto. Pobre Dona Lúcia, que "entrou de caiaque no navio", ou "entrou pelo cano". A carta ingênua de uma brasileira, que era pra ser anônima, virou piada, condizente com o fiasco do dia 8 de julho de 2014, um dia que não deve ser esquecido.

Não é normal tomar 7 gols, ainda mais numa semifinal de Copa do Mundo. A coletiva de imprensa do dia da ressaca brasileira, só tornou maior o drama. Os obstáculos que deverão ser superados, são grandes. Não é só alterar os nomes, as cabeças, é trocar a filosofia, e caso não exista, é buscar e se criar uma. Até quando apostar no peso da camisa, e se esquecer que como tudo na vida, o futebol também é feito de mudança?

Como em um tango

Texto de: Enrique Bayer

Cento e vinte minutos não foram suficientes pra definir o adversário da Alemanha na final da Copa do Mundo 2014. Cento e vinte minutos também não decretaram o que seria o Brasil e Argentina mais melancólico da história do futebol. Os hermanos estão na final. Como em um tango, Argentina e Holanda bailaram por cento e vinte minutos no Itaquerão. Muita insinuação, pouca objetividade. Parece que, se a FIFA permitisse, as duas seleções ainda estariam em campo.

Mas a FIFA não permite. Alguém sairia de São Paulo destinado a enfrentar a seleção alemã, a mesma que brincou com o Brasil ontem no Mineirão. O massacre alemão, a propósito, espantou pela efetividade no futebol e parece ter espantado também os possíveis adversários. É a única explicação para o desempenho fraco das duas seleções, que no tempo normal fizeram um jogo cheio de "não-me-toque".

Com medo do gol - ou de tomar gol - a laranja mecânica manteve-se fiel a sua proposta: apenas atacar depois de ser atacada. Também receosa de ver as redes de Romero balançando, a seleção Argentina demonstrou excessiva cautela, como a tradição "copera y peleadora" dos hermanos determina. O combinado de Messi + 10 lembrava muito um desses times cisplatinos que entra pra ganhar a Libertadores com o regulamento embaixo do braço.

O regulamento então, conduziu o jogo ao inevitável: a disputa dos pênaltis. E aí, mais uma vez, brilhou um goleiro. Mas dessa vez não foi o goleiro holandês. Romero, que faz parte daquela lista interminável de "goleiro argentinos que não são confiáveis" mostrou que talvez a imprensa especializada esteja errada.

Durante toda Copa, o argentino responsável por ficar debaixo das traves teve atuações que não comprometeram, tanto que nossos vizinhos estão na final. Os pênaltis seriam então um prêmio pelo bom desempenho do arqueiro?

Podem ser. Com duas defesas exemplares nas cobranças de Vlaar e Sneijder o guarda-meta argentino fez a geradora oficial de imagens focalizar Tim Krul, como se perguntasse aos telespectadores "Por que ele não está lá, na meta holandesa?". Não sabemos. Van Gaal provavelmente explicará, e provavelmente continuaremos conjecturando, como gostamos de fazer. O fato é que o herói da vez também veste luvas, mas desta vez ele é argentino.

Os argentinos agora tem a ingrata missão de fazer mais gols do que a Alemanha e empatar a disputa por títulos nas Copas entre europeus e americanos em 10 a 10. Tem também a oportunidade de passar a vida inteira zoando os brasileiros, que sediaram duas Copas e não ganharam nenhuma. Pior: com o tri argentino o saldo canarinho seria uma derrota na final e um título dos "nossos" maiores rivais na "nossa" casa.

Aos holandeses resta uma amarga disputa de terceiro lugar no sábado contra os donos da casa, o consolo de saber que não serão quatro vezes vice campeões em quatro finais e a dúvida eterna: o resultado seria diferente se Tim Krul estivesse lá?

P.S.: O leitor, amigo e atual morador de Buenos Aires, Heder Loose, lembrou que 9 de julho - a data do jogo - é também o dia da independência argentina. Mais um motivo pro arqueiro Romero ser considerado um herói nacional. E amigos, com o feriado, imaginem como não esteve Buenos Aires no pós jogo!

Questionado como quase todos goleiros argentinos da história, Romero garante a Argentina na final (Foto: Getty Images)

A efemeridade da bola

Tentar entender a humilhação pela qual o Brasil passou não é a melhor opção no momento. Se é que há uma



Texto de: Felipe Deliberaes

AVISO: este texto contém histórias de vida própria, clubismo, patriotismo, anti-patriotismo, comparações pouco lógicas e muita, mas muita subjetividade.

Este que vos fala, desde criança, sempre foi flamenguista. Mas não se fissurou pela magia da bola tão cedo - só veio a acompanhar com frequência em 2007, aos treze anos. Mas ele tem vagas memórias de alguns momentos importantes, anteriores ao ano referido: ir ao Palestra Itália assistir ao empate contra o Santo André, na primeira final da Copa do Brasil de 2004; a finalíssima da edição de 2006 do mesmo torneio, contra o Vasco; e até uma final da extinta Copa Mercosul, bem no início do século, no auge dos meus sete anos. Mesmo depois de começar a acompanhar, não tive a oportunidade de assistir alguns momentos marcantes. Um deles foi o 'Cabañazzo', em 2008. Não perca o fio da meada: esse jogo tem tudo a ver com o que aconteceu nesta tarde de domingo, no Mineirão.

Para os não-familiarizados com o ocorrido, estávamos buscando uma vaga nas quartas-de-final da Libertadores de 2008. O oponente era o América do México, liderado pelo carismático Salvador Cabañas, um paraguaio gordinho e baixinho, que parecia ter saído de uma pelada de casados x solteiros. Vencemos a trupe mexicana na ida, em terras mariachis, por 4x2. Antes de jogarmos a partida de volta, conquistamos o bi-campeonato carioca, e a metade rubro-negra do Rio de Janeiro era só festa. Chegado o segundo jogo das oitavas da competição continental, mal vimos a cor da bola. A festa passou a ser de Cabañas, que marcou duas vezes na vitória mexicana por 3x0, em pleno Maracanã; No agregado, 4x5 e eliminação. E ninguém entendeu nada. Parafraseando o então goleiro, e hoje ilustre presidiário, Bruno: "não tem explicação, não, não tem". Não tinha mesmo.

Parecia brincadeira de rua: alemães comemoram um dos vários gols da tarde (Foto: Getty Images)
Tudo bem, ontem foi 7, seven, sete a um! Numa semi-final de Copa do Mundo! Em casa!!! Ainda mais difícil de raciocinar. A preocupação do torcedor brasileiro pelas ausências de Neymar e Thiago Silva refletiam como água cristalina nas conversas do dia-a-dia e nas apostas: "ah, põe aí 2x1 pra gente", "olha, não sei não, vai ser difícil, arrisco um 1x1", "acho que não dá hein, 1x0 pros caras". Era a prova de fogo e estávamos sem duas das referências técnicas e motivacionais. Mas bem como no Cabañazzo, o 'Alemanhazzo' não se explica tão fácil assim.

Mas vamos tentar. David Luiz, o melhor jogador da seleção na Copa, se animou com o bom início da equipe e, como de costume, subiu ao ataque muito mais rápido do que voltou para recompor a defesa. Mantendo a calma e não se desesperando com a pressão, os alemães esperaram um buraco deixado pelo zagueiro mais carismático (marqueteiro?) da história do Brasil - ok, por Dante também - para tocar a bola na área com facilidade e meter pro fundo da rede do pobre Julio César (vem pro Mengão, Julio!). Marcelo, lamentável nesta Copa, aprontou das suas mais uma, duas, três vezes. Os volantes ocupavam, em alguns momentos, os mesmos espaços, deixando o dinâmico meio-campo alemão livre para avançar. Oscar, mais uma vez, foi nulo. Bernard é jovem, não tem experiência de Copa, foi jogado na fogueira etc. etc. Mas a bola pipocava em seus pés alegres. Parte da culpa cai sobre os companheiros, que se posicionavam pessimamente; Contudo, parte cai sobre os próprios ombros frágeis de um menino que vai evoluir, mas que ainda não consegue carregar o peso da camisa que vestiu ontem. E Fred. O que falar sobre Fred? Que tal não falarmos sobre Fred?

Pra história: Klose marca seu 16º gol e é o maior artilheiro da história das Copas (Foto: Getty Images)
Vamos falar sobre Klose. 16 gols. Merecidíssimo! Atacante trombador, podemos chamar até de caneleiro, mas empurrar a bola pro gol é com ele mesmo. Já está na história. É um dos grandes, mesmo que nunca tenha sido realmente grande. Será que para por aqui ou deixa sua marca na final? Olha que o menino Müller tá aí, pra honrar o sobrenome... honrar. E aqui do nosso lado, honraram? Julio César fez isso? David Luiz, Luis Gustavo, Neymar fizeram isso? Eu, particulamente, acredito que sim. Uns mais, outros menos. No final das contas, é triste os esforços individuais serem eclipsados pela vergonha coletiva. Da qual estes quatro mencionados também participaram... uns mais, outros menos.

A verdade é que o futebol é inconstante. Uns dizem que é cíclico; outros dizem que o dinheiro já está mandando em tudo. E há quem acredite que é tudo roubado, combinado, manipulado, ou demais teorias conspiracionistas terminadas com o sufixo -ado. Mas este flamenguista que já viu um 0x2 pro Santo André, um 0x3 pro América-MEX, um 0x4 pra Universidad-CHI acredita ser melhor não buscar explicação para determinados ocorridos. É como o pobre jovem apaixonado que deu amor, carinho e conforto para sua amada e busca explicações para a traição, que ocorreu apenas três meses depois de receber um 'sim' ao pedi-la em casamento. Ou a estudiosa que devorou os livros antes do vestibular e hoje trabalha no McDonalds esperando a próxima oportunidade, já que 'deu branco' na hora H.

É, tem coisas que é melhor a gente nem tentar entender.

(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

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